Dia dos pais normalmente é igual. Eu acordo em 7 lagoas. Meu irmão me pergunta que horas nós vamos para a casa do meu pai, eu respondo que não sei e quem acaba decidindo é minha irmã.
Ontem, estavamos sentados na mesa com o velho, falando sobre os jogos de Cruzeiro, Atlético e América, na cidade. Lembrei da minha infâcia. Meu pai tinha um fiat verde. No vidro, um adesivo do Bela Vista. Time que fazia contra o democrata o que era chamado na década de 50 de clássico do sertão.
Perguntei ao meu pai, você é belavistano né? Ele saiu da sala, foi ao quarto, e voltou com uma carteirinha de 1966, do Bela Vista Futebol Clube. Na foto, meu pai com 13 anos de idade. Ele me contou uma história do meu avô, que, em um ano em que o Bela Vista tinha sido rebaixado para a segunda divisão, foi ao José Duarte de Paiva (antigo campo do democrata) durante um treino. Alguém o viu lá e provocou: “Ué Chiquito? Mudou de time?” Já fazem 50 anos que meu avô nunca mais pisou naquela rua. Jurou ódio eterno ao democrata (que, de certa forma, eu herdei dele sem saber).
Sempre gosto de ouvir essas histórias de futebol. E sempre paro pra pensar como que o esporte tem se tornado chato. Esse mês mais um passo foi dado em direção à chatura total. Disfarçadas dentro de uma lei que criminaliza a violência nos estadios estão várias medidas absurdas. Uma delas é a proibição de se falar palavrão no estádio. Pena mínima? 3 anos sem poder ver o time jogar.
Antes disso foi a lei que proíbe o consumo de álcool nos estádios. Me lembro como se fosse um passado distante, o quanto eu gostava de ir ao independência ver o América jogar tomando uma cerveja com os amigos. Lembro também quando a lei entrou em vigor em BH. Para coibir a violência em jogos do Cruzeiro e do Atlético, foi probido a venda de cerveja no mineirão. Ao entrevistar o autor da medida, um jornalista da rádio atletiaia (itatiaia) indagou o motivo da cerveja continuar sendo vendida no Independência. Por que não temos as ocorrências de violência nos jogos do América, foi a resposta. “Mas a lei é uma só, e deve ser igual para todos”. Pronto. Acabou a diversão.
Não estou aqui defendendo a violência. Mas criminalizar a violência no esporte é algo esquisito. Violência tinha que ser crime independente de estar vinculada ou não ao esporte. A violência no futebol em BH está muito mais ligada a gangues que atendem por nome de Máfia Azul e Galoucura, que se drogam, depredam onibus e agridem cidadãos do que a alguma discussão que pode ser gerada por consumo de álcool no campo. Essas discussões normalmente são facilmente resolvidas pela turma do deixa disso.
Uma das coisas que separam o futebol de hoje do futebol do meu avô é que ele não é mais feito para torcedores, e sim para telespectadores. E consequencia disso é a massificação de alguns clubes e o quase fim da característica mais legal do futebol. O fato de que ele pode ser jogado em qualquer lugar. De você poder ir ver o seu time jogando no seu bairro.
A primeira fase disto formou, por exemplo, no nordeste, uma legião de torcedores que ao invés de torcerem pro Asa ou pro CRB, torcem para o Corínthians ou para o Vasco. No interior de Minas mesmo, tem muita gente que torce para o Flamengo ou para o São Paulo.
Agora, vejo freqüentemente na tv, durante jogos de campeonatos Europeus, garotos brasileiros mandando perguntas aos comentaristas, se dizendo torcedores do Barcelona ou do Real Madrid. Um garoto, por exemplo, nasce em Uberaba , se diz fã de futebol, mas nunca foi ao lado da sua casa ver um jogo do Nacional. Prefere ficar em casa vendo o jogo do Chelsea.
A seleção Brasileira mesmo, se tornou uma espécie de Harlem Globetrotters do futebol. Disputaram apenas um amistoso no próprio país nos últimos anos. Nesse meio tempo, eles montaram seu show em Oslo, Kuwait, Estocolmo, Londres (cinco vezes), Basel, Gotemburgo, Dortmund, Montpellier, Chicago, Boston, Dublin, Seattle e Boston.
Acho que nem deve fazer falta, a TV mostra tudo com super camera lenta.
Felizmente ainda há alguns casos de resistência. Ano passado fiquei conhecendo uma rivalidade muito bacana, na cidade de Pelotas, no Rio Grande do Sul. O Brasil vs Pelotas fazem um clássico que sobrevive muito bem à polarização do futebol gaúcho entre Gremio e Inter. O clássico movimenta a cidade e mostra um espírito que o futebol nunca deveria ter perdido.
Neste contexto, um clube famoso, que não possui nenhum título de primeira divisão e amarga o terceiro escalão do futebol paulista ganha cada vez mais importância. O Clube Atlético Juventus, orgulho do bairro da Mooca, ícone da zona leste paulistana, virou uma espécie de museu.
Tenho muita vontade de ir a um jogo do Juventus, na rua Javari. O time hoje é símbolo da resistência ao futebol moderno. A principal causa da torcida é protestar contra a mercantilização do futebol, um processo que, coincidentemente ou não, conduziu ao risco de extinção instituições tradicionais como o Juventus (e o Bela Vista). O futebol de hoje virou comércio, jogador é mercadoria. Kakás, Ronaldos e Robinhos são transformados em deuses. Isso acaba com o futebol, que é coletivo. Mata o espírito esportivo. Hoje os jogadores são maiores que o Clube.
Vem da Mooca um exemplo de bom humor que o futebol nunca deveria ter perdido. A cada tiro de meta do goleiro rival, um coro começa desde a expectativa de corrida para o chute, e sempre termina com gargalhadas: “Ôôôôôôô, filho da puta!”. Tradição local que vai dar 3 anos de punição a quem praticá-la daqui a alguns dias.
PS: Link sobre a excursão do Bela Vista à Europa, na Década de 50


- Nos dois últimos domingos a Globo passou jogo do Corinthians aqui pra Minas. É ridículo.
- Nada se compara ao Mineirão lotado, vestido de azul e cantando.
- Espero que os jogadores e treinadores que falarem palavrão durante um jogo fiquem proibidos de jogar por três anos.